MINISTÉRIO DA SAÚDE

GOVERNO DA REPÚBLICA DE ANGOLA

Rui Moreira de Sá

Director Editorial

direccao@jornaldasaude.org

Evacuação de doentes para o exterior

 

Recentemente, o director da Junta Nacional de Saúde, Augusto Gonçalves Lourenço, revelou que, entre 2012 e 2016, foram evacuados para a África do Sul e Portugal um total de 1.283 doentes. Entre 1999 e 2012, o seu custo ascendeu a cerca de 500 mil dólares por mês. Em 13 anos (1999-2012) as evacuações para o exterior custaram ao erário público um total de 12,9 mil milhões (biliões) de kwanzas. Estas despesas cobrem a assistência médica e medicamentosa e o bilhete de passagem.

Os dados mais recentes, relativos a 2015 e 2016, apontam, entretanto, para um decréscimo no número de doentes evacuados, graças a um programa do Ministério da Saúde que visa a reversão da actual situação das juntas de saúde: passou de 255 doentes evacuados, em 2012, para 165, em 2016.

Na conferência de imprensa promovida há dias pelo GRECIMA, o ministro da Saúde, Luís Gomes Sambo, reconheceu que o país não tem capacidade para resolver todo o tipo de casos de saúde no nosso país e que, nos casos em que o doente pode encontrar o tratamento e melhoria no exterior, o Governo tem subvencionado a evacuação principalmente para Portugal e África do Sul.

Contudo, é provável que muitos dos casos nem precisassem de evacuação para o exterior. Há especialidades em que se avançou bastante em Angola. É, por exemplo, o caso da cardiologia em que, no hospital Josina Machel, se realizam cirurgias valvular (mitral, aórtica, mitro-aórtica e tricúspide), cardiopatia congénita de comunicação interatrial (CIA) e de comunicação interventricular (CIV), tetralogia de Fallot, coarctação da aorta, cirurgia coronária e da aorta (aneurisma da aorta), entre outras, utilizando técnicas cirúrgicas muito avançadas, conforme o Jornal da Saúde testemunhou em reportagens realizadas nesta unidade de saúde.

Com a sua visão humanista, o ministro da Saúde, Luís Gomes Sambo, admitiu, na referida conferência de imprensa, que o estado de doença “não é só a doença em si, é todo o sentimento, a paixão sobre o doente, sentimentos de desespero que também têm de ser ponderados muitas vezes nas decisões tomadas pelos familiares para evacuarem os seus doentes e o Estado tem o dever de apoiar tanto quanto possível.”

E deixou a promessa de que estão a ser criadas as condições para o surgimento no país de mais especialidades médicas para reduzir em 50 por cento o número de doentes evacuados para o exterior.

Boas notícias!

 

 

 

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Curso multidisciplinar de acidentes de trabalho e doenças profissionais

 

Irá decorrer, entre os dias 20 e 25 de Fevereiro, no Centro de Formação de Saúde Multiperfil, o curso de “Acidentes de Trabalho e Doenças Profissionais”. Numa altura em que a segurança no trabalho, a saúde e o bem estar dos trabalhadores assumem uma importância cada vez mais relevante, esta formação é especialmente destinada a todos os profissionais relacionados com a temática, quer sejam médicos, juristas, gestores de empresas, de RH, de empresas seguradoras e gestores de sinistros, engenheiros e técnicos de segurança e de sistemas de gestão de riscos, enfermeiros e estudantes, mas o curso está disponível para todos os outros interessados.

Com uma carga horária de 44 horas, o curso será ministrado entre as 8h e às 16h. Composto por dez módulos, esta formação abordará temas que vão dos riscos profissionais à sua prevenção e controlo, passando pela caracterização dos acidentes e diagnóstico das doenças relacionados com o trabalho, o seguros de acidentes de trabalho e doenças profissionais, bem como a legislação que regula estas matérias. O curso, que será ministrado pelo médico do trabalho Rui Capo, incluirá uma consulta de Medicina do Tráfego, que consiste na avaliação de aptidão para condução de cada formando e respectivo atestado. Com esta consulta, destaca Rui Capo, pretende-se chamar a atenção dos participantes para a importância dos exames médicos para avaliação da aptidão para condução, “já que muitos dos acidentes de trabalho registados são, precisamente, acidentes de trânsito e são cada vez mais frequentes as situações em que as seguradoras se recusam, e bem, a pagar indemnizações porque conseguem provar que os condutores envolvidos nos acidentes não estavam aptos para conduzir”, sendo este um motivo válido para descaracterizar o acidente, sem direito a indemnizações.

Este curso apresenta outra inovação que tem como objectivo alertar os trabalhadores e entidades empregadoras para a importância do seguro de acidentes de trabalho e doenças profissionais, proporcionando aos formandos a possibilidade, caso assim queiram, de subscrever um seguro que será válido apenas durante a semana de formação.

No fim do curso e após avaliação final, os formandos terão um certificado de participação (mínimo de 75% de frequência).

 

Para mais informações, poderá enviar um e-mail para os seguintes endereços: ruicapo@hotmail.com - cfs@multiperfil.co.ao

 

Poderá ainda telefonar para os números:

928120644

925075016.

 

 

 

 

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4 de Fevereiro - Dia Mundial da Luta Contra o Cancro.

A doença oncológica pode ter cura!

 

Susana Gonçalves

 

Em todo o mundo, milhões de pessoas vivem, actualmente, com o diagnóstico de cancro. A investigação constante faculta aos especialistas um conhecimento cada vez maior sobre as suas causas e a forma como se desenvolve e cresce, ao mesmo tempo que se descobrem novas formas de o prevenir, detectar e tratar.

 

De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), o cancro é uma das principais causas de morte no mundo, vitimando cerca de oito milhões de pessoas anualmente. O cancro contabiliza mundialmente mais mortes que o VIH/SIDA, a tuberculose e a malária juntos. Se, em 2008, mais de 55% das mortes por cancro ocorreram em regiões menos desenvolvidas, estima-se que, em 2030, de 60 a 70% dos 21,4 milhões de novos casos de cancro ocorrerão nos países em desenvolvimento.

O aumento da longevidade da população é a principal razão das estimativas que apontam para um enorme aumento dos números de cancro, uma vez que a idade é um dos principais factores de risco. A verdade é que a incidência do cancro está a aumentar e daqui algumas décadas metade da população terá tido cancro. No entanto, a medicina tem vindo a tornar-se cada vez mais eficaz no tratamento das formas precoces de cancro e, actualmente, só um quarto dos doentes morre vitimado pela doença. O diagnóstico precoce aliado a tratamentos cada vez mais capazes permite maiores taxas de cura ao mesmo tempo que proporciona um aumento da qualidade de vida necessária para conviver com a doença.

 

Células fora de controlo

O cancro não é uma única doença, mas sim inúmeras doenças que ocorrem quando, durante o seu processo de regeneração, algumas células que sofreram mutações no ADN começam a dividir-se descontroladamente, adquirindo a capacidade de invadirem outros tecidos e de não morrerem quando devem. Estas células doentes, além de não morrerem, continuam a formar-se quando o corpo já não precisa delas, acumulando-se em massas sem qualquer função. Estas massas, ou tumores, podem ser benignas e não representar risco para o organismo, ou malignas, recebendo então o nome de cancro. Há, no entanto, cancros que não formam tumores, nomeadamente os cancros do sangue (hematológicos), em que as células doentes circulam pelo organismo.

É precisamente através dos sistemas circulatório e linfático, que todas as células de cancro têm a possibilidade de se deslocarem pelo organismo, dando origem a metástases que espalham a doença por novos orgãos, invadindo-os e tornando o combate à doença ainda mais difícil.

De uma forma geral, o organismo humano lida de forma muito eficaz com as células que possuem erros genéticos, reparando-as ou eliminando-as. No entanto, ao longo dos anos, essa capacidade diminui, daí que o cancro surja mais frequentemente em idades avançadas.

Grande parte dos cancros têm origem em células epiteliais (da pele e do revestimento do tubo digestivo ou dos aparelhos respiratório e genito-urinário) e recebem a designação de carcinomas.

Existem também os cancros das células do sangue, ou hematológicos (leucemias, linfomas ou mielomas), na sua grande maioria com origem nos glóbulos brancos e que são tratados por hematologistas; os sarcomas, que atingem os tecidos de suporte como o osso, a cartilagem, a gordura, os músculo, os vasos ou outros tecidos conjuntivos; os melanomas que se desenvolvem nos melanócitos, células da pele; ou os tumores do sistema nervoso central, do cérebro e espinal medula, como é o caso por exemplo dos glioblastomas.

Não sendo uma doença contagiosa, pode, em alguns casos, desenvolver-se a partir de infecções provocadas por certos vírus ou bactérias.

 

Factores de risco

Embora não seja fácil determinar porque é que um determinado tipo de cancro se desenvolve, existem factores de risco que aumentam a probabilidade de uma pessoa vir a desenvolver a doença, nomeadamente:

— o  envelhecimento;

— a genética;

— o consumo de tabaco e de álcool;

— a exposição à luz solar;

— a radiação ionizante ou a determinados químicos e outras substâncias;

— o contágio por alguns vírus e bactérias (os vírus do papiloma humano e da hepatite B, por exemplo);

— tratamentos com determinadas hormonas;

—  uma dieta pobre;

—  falta de actividade física ou excesso de peso.

Se não podemos actuar sobre alguns destes factores de risco, como é o caso da genética, outros podem, e devem, ser evitados.

 

A importância

da prevenção

De acordo com a OMS, cerca de 40% de todos os cancros podem ser prevenidos e outros podem ser detectados numa fase precoce do seu desenvolvimento, tratados e curados. Os rastreios, exames para despiste do cancro ou de alguma condição que possa levar à doença em pessoas que não têm sintomas, podem ajudar os médicos a encontrarem e tratarem, precocemente, alguns tipos de tumores. São cada vez mais frequentes as mamografias e os testes Papanicolau para a detecção de cancros da mama e do colo do útero, o toque rectal para identificação do risco de cancro da próstata e exames que permitem detectar cancros cólon e recto. A estes exames “de rotina” juntam-se outros a que os especialistas recorrem quando um paciente apresenta factores de risco que podem indicar uma maior probabilidade de vir a sofrer de determinado cancro.

Sinais de alerta

Os sintomas que o cancro pode provocar no organismo são muito diferentes. Assim, é importante estarmos atentos a sinais que devem ser levados muito a sério e ser alvo de consulta médica para serem devidamente analisados. São eles, principalmente:

— O aparecimento de um espessamento, massa ou nódulo na mama, ou em qualquer outra parte do corpo;

— o aparecimento de um sinal novo, ou alteração num sinal já existente;

—  a não cicatrização de uma ferida;

— a rouquidão ou tosse que não desaparece;

— alterações relevantes na rotina intestinal ou da bexiga;

— desconforto depois de comer;

— dificuldade em engolir;

— ganho ou perda de peso, sem motivo aparente;

— sangramento ou qualquer secreção anormal;

— sensação de fraqueza ou extremo cansaço.

Na maior parte das vezes, os sintomas não estão relacionados com qualquer cancro. No entanto, só o médico poderá confirmar a origem desses sintomas pelo que qualquer pessoa que os apresente, bem como quaisquer outras alterações de saúde relevantes, deve procurar ajuda clínica rapidamente. Geralmente, na sua fase inicial o cancro não causa dor, não devendo o paciente esperar para consultar o médico.

 

Meios de diagnóstico

Caso exista um sintoma específico, ou o resultado de algum exame de rastreio sugira a existência de um tumor, é preciso verificar se o mesmo é devido a um cancro ou a qualquer outro motivo. O médico irá fazer algumas perguntas relacionadas com a história clínica e familiar, bem como pedir um exame físico, e exames complementares de diagnóstico, como testes laboratoriais (análises clínicas), procedimentos de imagiologia (radiografias, tomografias computorizadas - tac, ecografias ou ressonâncias magnéticas, entre outros), biópsias (exames feitos por patologistas a uma amostra de tecido), e o estadiamento do cancro (análise da sua extensão e evolução através do tamanho do tumor, na sua disseminação para os gânglios linfáticos e na sua metastização para outras zonas do corpo).

 

Planos de tratamento

O diagnóstico de cancro provoca um imenso choque no paciente mas é fundamental que este converse com o seu médico, ou médicos, já que o cancro pode ser tratado por diferentes especialistas, para saber qual o tratamento a iniciar o mais rapidamente possível. Sempre que os procedimentos sugeridos lhe apresentem dúvidas, o paciente pode, e deve, procurar a opinião de um segundo especialista. É importante que, durante a fase de estabelecimento do tratamento, os médicos transmitam ao paciente informações como os resultados realisticamente previsíveis e o tipo de efeitos secundários que podem ocorrer e que formas existem para os controlar e minimizar.

Dependendo do estádio da doença é estabelecido um plano de tratamentos que tem em consideração a idade do doente e o seu estado geral de saúde, plano esse que poderá sofrer alterações ao longo do tempo. Se o objectivo principal do tratamento é curar a pessoa do cancro, existem casos, em que a finalidade passa por controlar a doença ou reduzir os sintomas, durante o maior período de tempo possível.

A maioria dos planos de tratamento inclui cirurgia, radioterapia ou quimioterapia, mas em alguns casos recorre-se à terapêutica hormonal ou biológica. Adicionalmente, pode ainda ser usado o transplante de células estaminais (indiferenciadas), para que o doente possa receber doses mais elevadas de quimioterapia ou radioterapia.

O tratamentos podem actuar numa área específica (terapêutica local), ou em todo o corpo (terapêutica sistémica), e alguns tipos de cancro respondem melhor a um só tipo de tratamento, enquanto outros respondem melhor a uma associação de medicamentos ou modalidades de tratamento.

Paralelamente ao tratamento para curar cancro, podem ser prescritos e administrados fármacos para controlar a dor e outros sintomas da doença, bem como os efeitos secundários dos próprios tratamentos.

Em caso de doença prolongada, incurável e progressiva, e para prevenir o sofrimento e proporcionar a maior qualidade de vida possível, a estes doentes e suas famílias, são utilizados os chamados cuidados paliativos.

 

Tratamentos disponíveis

Actualmente, são muitas as armas de que a medicina dispõe para combater o cancro e, todos os dias, surgem novas esperanças na luta contra a doença. Conheça alguns dos tratamentos à disposição dos especialistas para tratar os doentes oncológicos.

 

Cirurgia

Através deste procedimento, o cirurgião remove o tumor e as suas margens. Pode ainda remover tecido circundante, para prevenir que o tumor volte a crescer, e alguns gânglios linfáticos localizados na região do tumor.

 

Radioterapia

Actua através de raios de elevada energia que podem ser administrados de várias formas, para matar as células cancerígenas. Os seus efeitos secundários dependem muito da dose e do tipo de radiação, e podem variar conforme a parte do corpo a ser tratada.

 

Quimioterapia

Consiste na utilização de fármacos (em associação ou isolados), para matar as células cancerígenas. Esses medicamentos, que também afectam as células saudáveis, podem ser administrados de forma oral ou através de injecção intravenosa e constituem uma terapêutica sistémica, já que os medicamentos circulam por todo o organismo. Aplicados através de ciclos de tratamento, geralmente em regime de ambulatório, provocam efeitos secundários que dependem dos fármacos e das doses utilizadas.

 

Terapêutica hormonal

Impede que as células cancerígenas acedam às hormonas produzidas naturalmente pelo organismo e das quais necessitam para se desenvolverem. É utilizada nos casos em que testes laboratoriais demonstram que o cancro tem receptores hormonais. Essa recepção de hormonas pode ser evitada com recurso a medicamentos que bloqueiam a sua produção natural ou através da remoção do órgão que as produz.Tal como a quimioterapia, a terapêutica hormonal também pode afectar as células de todo o organismo, pois tem actividade sistémica, e os seus efeitos secundários dependem do tipo de tratamento.

 

Imunoterapia

A também chamada terapêutica biológica, utiliza a própria capacidade do organismo para combater o cancro, estimulando o sistema imunitário. Administrada por via endovenosa, geralmente em regime de ambulatório, actua de forma sistémica e tem efeitos secundários raramente graves.

 

Transplante de células

estaminais

O transplante de células percursoras das células do sangue permite que o doente receba elevadas doses de quimioterapia, radiação ou ambas. Uma vez que estes tratamentos destroem as células normais do sangue, através deste transplante o doente recebe células percursoras das células do sangue saudáveis que vão atenuar os danos. Os efeitos secundários do transplante de células estaminais incluem infecções e a perda de sangue e, no caso de pessoas que recebam estas células de dadores, poderá haver rejeição.

 

 

 

 

 

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Fernando Miguel, director do Instituto Angolano de Controlo do Câncer (IACC)

 

“Em Angola há uma enorme falta de informação relativamente

à gravidade do cancro”

 

Nas vésperas do Dia Mundial de Luta Contra o Cancro, que se assinala a 4 de Fevereiro, o Jornal da Saúde foi conversar com Fernando Miguel, director do Instituto Angolano de Controlo do Câncer (IACC), para conhecer a  realidade que envolve a doença oncológica no País.

 

O especialista afirma que existem em Angola médicos oncologistas de grande qualidade e que há recursos humanos e tecnológicos que permitem combater a doença. Porém, afirma que às dificuldades naturais que se colocam à medicina num País em crise financeira, junta-se um “inimigo” mais difícil de combater: a falta de informação relativa à ao cancro.

Reconhecendo que a situação actual do País compromete a actividade ideal dos clínicos dedicados à luta contra o cancro, Fernando Miguel afirma que “não se pode dizer que é a mesma coisa um médico trabalhar em Angola ou trabalhar em França. Temos de trabalhar de acordo com o meio em que estamos inseridos. Temos várias limitações que nos são impostas pela própria situação do local em que nos encontramos”, e exemplifica: “Angola não produz praticamente nada. Se nem comida conseguimos produzir, muito menos produziremos meios de diagnóstico ou tratamento. Estou a referir-me a agentes reactivos, meios terapêuticos, medicamentos… Como a compra destes produtos depende das divisas, obviamente que tudo isto pode faltar”.

No entanto, e apesar destas dificuldades o director do IACC não hesita em afirmar que “temos recursos humanos e temos recursos tecnológicos. Temos especialistas que não devem nada a outros que se encontram pelo mundo fora”.

Se, em Luanda, os doentes com cancro podem encontrar tratamento e apoio no Centro Nacional de Oncologia, nas províncias não existem unidades de saúde especificamente dedicadas a estas patologias, mas Fernando Miguel explica como funciona uma rede de profissionais que permite chegar a um maior número de pacientes: “Temos um sistema que consiste na existência de “antenas” em todas províncias, embora umas trabalhem com maior intensidade que outras. Essas “antenas” servem para captar e depois drenar, para aqui, os casos de cancro que vão aparecendo”. Essas “antenas”, tão importantes na luta contra a doença, são os médicos que estão mais próximos das populações. “A doença oncológica é uma doença transversal. Algumas especialidades médicas estão associadas a determinadas características.

 

A oncologia é transversal

Por exemplo, a pediatria está relacionada com a idade e é limitada às crianças. Também há especialidades relacionadas com órgãos. Mas a oncologia é transversal. Pode estar pele e ser detectada pelo dermatologista ou estar no osso e ser detectada pelo ortopedista. São esses especialistas que vão detectar os casos e encaminhá-los para nós. Isto também representa uma facilidade: se a doença surge na pele, caso exista um dermatologista por perto a mesma pode ser detectada mais rapidamente. Esse médico faz uma primeira abordagem e depois começamos a trabalhar em colaboração”.

A imensa variedade de formas que a doença oncológica adquire não permite falar num tratamento comum, mas sim adaptado a cada caso. “Quando falamos de doença oncológica falamos de mais de duzentas patologias. Hoje em dia, diz-se que a doença oncológica não é doença, mas sim a forma como essa doença se manifesta. Cada uma das formas da doença tem cuidados específicos. Depende se está na mama, no pulmão…”.

 

Desconhecimento

da gravidade

Negando a hipótese de existir, em Angola, discriminação em relação ao doente oncológico, o especialista confessa que uma das maiores dificuldades com que os médicos se confrontam é, antes, uma enorme falta de informação relativamente à gravidade da patologia por parte dos próprios pacientes. “O que nós, médicos, notamos é que dizermos a um paciente que está com cancro é quase a mesma coisa que lhe dizer que está com paludismo. Ou seja, ele sabe que em qualquer uma destas situações está doente, mas não distingue a gravidade de uma das situações”, revela o clínico, para explicar que esta falta de conhecimento é um dos principais obstáculos ao tratamento: “Quem tem cancro, tem a vida em risco e os cuidados têm de ser contínuos. Isso requer a tomada de consciência quer do próprio doente, quer da sua família”, de forma a terapia não seja abandonada a meio, comprometendo a sua eficácia.

Defendendo que a prevenção “é o caminho ideal”, e questionado sobre de que forma devemos actuar para evitar estas patologias, Fernando Miguel defende que “todos nós nascemos saudáveis e quando estamos a falar de prevenção, estamos a falar de muitos determinantes de saúde que não têm nada a ver com hospitais ou com investigação médica. Estamos a falar da informação que recebemos para saber viver de forma mais saudável. Muitas pessoas não têm informação suficiente sobre o que devem comer e beber, como se devem comportar. Conhecem-se quatro factores importantes que podem levar ao surgimento das doenças crónicas não transmissíveis, como é caso do cancro, concretamente, a inactividade física, o consumo de tabaco, o consumo de álcool e por último, por incrível que pareça, os erros dietéticos. Comemos o que não devemos e não comemos o que devemos. Se estes quatro factores fossem controlados haveria muito menos casos de cancro”. Assim, o especialista alerta: “Se pudermos evitar estes quatro factores, estamos a fazer uma diferença enorme pela nossa saúde. Além do cancro poderemos evitar as doenças cardiovasculares, a diabetes e as doenças respiratórias, entre outras.”

 

Iniciativas

Questionado sobre as iniciativas que o Instituto prevê realizar para assinalar o Dia Mundial da Luta Contra o Cancro, o director do IACC refere que o mesmo é “uma instituição pública que depende dos poucos recursos que o Estado coloca à nossa disposição” e que “numa situação de crise como a que vivemos, estamos preparados apenas para dar suporte técnico, nomeadamente para enviar os nossos profissionais à rádio ou à televisão para assim alertarmos a consciência das pessoas. É nesse sentido que iremos focar a forma como assinalaremos a passagem desta data”, divulga.

 

 

 

 

 

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Os números em Angola

 

Em 2016, e de acordo com números provisórios apurados pelo Instituto Angolano de Controlo do Câncer (IACC), os cancros da mama e do cólo do útero continuam a dominar a lista dos novos casos diagnosticados em Angola. Dos 1128 novos casos registados até Novembro, 234 são de cancro da mama e 219 são de cancro do cólo do útero. Seguem-se, na lista dos novos casos de cancro registados, o cancro da próstata (68), o sarcoma de Kaposi (41), o cancro do cólon e recto e o cancro do fígado (38 casos cada), o cancro da pele não melanoma (35), o cancro dos tecidos moles e conjuntivos (32), o cancro do estômago (29), e o cancro do olho e anexos (27).

Relativamente à distribuição dos novos casos de cancro registados por faixas etárias, segundo os dados já apurados pelo IACC é na faixa etária dos 45 aos 49 anos a mais afectada, com 132 casos. Na faixa dos 50 aos 54 anos registaram-se 124 casos; na dos 55 aos 59 anos, 120 casos; na dos 60 aos 64 anos, 110 casos; e na dos 40 aos 44 anos, 109 casos. Entre as crianças dos zero aos quatro anos foram registados 48 novos casos de cancro. As faixas etárias em que a doença é menos prevalente são as dos 10 aos 14 anos e dos 15 aos 19 anos.

Também no que diz respeito aos casos de mortalidade contabilizados pelo IACC até ao passado mês de Novembro, ao longo de 2016 também os cancros da mama e do cólo do útero foram os que mais vítimas fizeram, com 71 e 61 casos, respectivamente. Na lista dos tipos de cancros mais mortíferos, encontram-se ainda os cancros dos fígado e vias biliares intra-hepáticas (28 casos), os linfomas não-Hodgkin(15), o sarcoma de Kaposi (14), o cancro da próstata e as leucemias (12 casos, cada), o cancro de brônquios e pulmões (11) e o cancro do estômago (10).

Embora estes números se refiram apenas aos casos registados no IACC e possam não representar a realidade da doença no País, a predominância dos cancros da mama e cólo do útero pode ser resultado das campanhas de sensibilização realizadas junto da população, que leva a que, sobretudo as mulheres, estejam mais atentas aos sintomas e procurem ajuda mais frequentemente, permitindo o diagnóstico da doença. Assim,  estes resultados podem ser indicadores de que a sensibilização da população para a importância da prevenção e da detecção precoce do cancro deve prosseguir e ser alargada a cancros com outras localizações que também são frequentes no País.

 

 

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Descobertas que são esperança na luta contra o cancro

 

Susana Gonçalves

 

Por todo o mundo multiplicam-se os estudos e investigações em busca de novas armas para o combate ao cancro nas suas mais diversas formas. Da descoberta de novos métodos de prevenção da doença à de novos meios de diagnóstico passando, claro, por novos fármacos e formas de tratamento inovadoras, especialistas das mais variadas áreas não baixam os braços e vão atingindo os seus objectivos. Graças aos esforços de todos, o cancro é, cada vez mais, uma doença que pode ser evitada e curada.

 

 

Terapia fotodinâmica

 

A Universidade de Coimbra, em Portugal, anunciou recentemente que um primeiro ensaio clínico que testou a chamada terapia fotodinâmica em seres humanos revelou resultados positivos no tratamento do cancro da cabeça e pescoço. Num dos casos tratados, foi revelado, o tumor desapareceu completamente.

Uma equipa de investigação daquela Universidade desenvolveu a molécula redaporfina, um fotossensitizador que destrói um tumor quando, através da terapia fotodinâmica, é iluminado por uma determinada cor. Apontando essa luz para o tumor, é possível matar as células cancerosas e apenas essas, sem ter efeitos no resto do corpo. Ao longo de dois anos, foram tratados catorze pacientes com cancros espinocelulares de cabeça e pescoço avançado. O resultado mais notável foi o de um paciente, já em cuidados paliativos, cujo o tumor desapareceu completamente.

A empresa portuguesa Luzitin, que detém os direitos de exploração da molécula redaporfina, espera que o tratamento esteja disponível no mercado até 2022.

 

 

Imuno-oncologia contra o cancro do pulmão

 

A Comissão Europeia autorizou a comercialização de Pembrolizumab, um fármaco de imuno-oncologia, para o tratamento do cancro do pulmão de células não-pequenas (CPCNP), o tipo mais comum de cancro de pulmão.

“O cancro do pulmão representa a principal causa de morte por cancro em todo o mundo, e este marco destaca a importância da inovação e o compromisso com o desenvolvimento de novos tratamentos que possam ter um impacto positivo para os doentes que vivem com esta doença” afirmou Stefania Vallone, presidente da associação Lung Cancer Europe.

O inovador Pembrolizumab faz parte de um grupo de novos medicamentos contra o cancro que utilizam o sistema imunitário do próprio doente para combater as células tumorais. Estas terapêuticas imuno-oncológicas têm-se afirmado nos últimos anos como uma das principais fontes de esperança para o tratamento do cancro na medicina moderna.

 A taxa de sobrevivência relativa a cinco anos para doentes que sofrem de cancro do pulmão avançado metastático (Estádio IV), estima-se ser de 2% e o Pembrolizumab demonstrou aumentar a sobrevivência global dos doentes de forma significativa quando comparado com o tratamento padrão com quimioterapia.

 

Descoberta proteína que “dispersa” cancro no corpo

 

Uma pesquisa realizada em colaboração entre a organização britânica Pesquisa Mundial de Cancro e o Instituto de Pesquisa de Barcelona, descobriu uma proteína específica, a CD36, que está presente em todas as células cancerígenas metastáticas de pacientes com diferentes tipos de tumores, incluindo tumores orais, cancro de pele, do ovário, bexiga, pulmão e mama.

O estudo, publicado na revista Nature, encontrou a proteína nas membranas das células tumorais e descobriu que ela é responsável por absorver ácidos gordos.

Para confirmar a sua importância na disseminação do cancro, a pesquisa “infectou” com CD36 células cancerígenas não metastáticas, que em situação normal não espalhariam a doença. As células “contaminadas” pela proteína transformaram-se em células metastáticas.

Num estudo com ratinhos com cancro humano, os pesquisadores conseguiram impedir completamente a metástase do cancro ao bloquear a CD36. “A CD36 pode ajudar a criar um tratamento que impeça o cancro de se espalhar. Descobertas destas não acontecem todos os dias”, afirmou o professor Salvador Aznar Benitah, que participou na investigação. Mesmo em animais que já tinham metástases, os anticorpos bloqueadores de CD36 levaram à remoção completa de metástase em 20% dos ratos. Nos 80% restantes, foi registada uma dramática redução de 90% das metástases. Tudo sem efeitos secundários graves.

Os pesquisadores revelaram ainda que, nos animais a quem foi disponibilizada uma dieta rica em gorduras as metástases aumentaram em 50% e foram mais frequentes. Desta forma, alertaram para o perigo da ingestão de gorduras em excesso que tem consequências no organismo e facilita a dispersão do cancro pelo corpo.

 

 

Identificados marcadores relativos ao cancro da próstata

 

Uma equipa de investigadores, liderada por Robert Bristow, da Universidade de Ontário, no Canadá, identificou mutações genéticas que podem determinar o grau de agressividade e a capacidade de propagação do cancro da próstata, divulgou um artigo publicado na revista Nature Communications.

A investigação revelou diferenças nos perfis de mutação entre o cancro da próstata localizado de risco intermédio e o cancro da próstata avançado e metastático. A deteção destes marcadores poderá levar à descoberta de subtipos de cancro, o que será útil para desenvolver tratamentos específicos para cada caso.

Segundo os investigadores, “estas diferenças podem proporcionar a base para selecionar a linha apropriada de tratamento em diferentes casos”. No entanto, revelam a necessidade de outros estudos para a validação desta descoberta.

Entretanto, uma outra investigação, também dirigida por Robert Bristow, estudou os factores determinantes da agressividade num tipo de cancro da próstata, definido por mutações do gene BRCA2, que costuma estar ligado ao cancro da mama. O estudo do genoma dos tumores de 14 doentes com cancro da próstata BRCA2 mutante, descobriu alterações num dos genes que, em estudos anteriores, foi associado a metástases.

 

Tabaco danifica o código genético das células

 

Um estudo do Instituto britânico Wellcome Trust Sanger e do Laboratório Nacional de Los Alamos, nos Estados Unidos, recentemente publicado na revista Science, identifica vários mecanismos através dos quais o tabaco danifica o ADN. Fumar um maço de cigarros por dia provoca, em média, 150 mutações por ano nas células pulmonares, segundo este estudo, que analisou e comparou vários tumores e que mediu com precisão, pela primeira vez, os efeitos genéticos do fumo, não só nos pulmões, mas também noutros órgãos que não lhe estão directamente expostos. Já se sabia que o tabagismo contribui para, pelo menos, 17 tipos de cancro, e o novo estudo ajuda a explicar como é que o cigarro provoca esses tumores.

“Descobrimos que as pessoas que fumam um maço de tabaco por dia têm, em média, 150 mutações genéticas adicionais por ano nos pulmões, o que explica que os fumadores tenham um risco acrescido de desenvolver cancro do pulmão”, afirma Ludmil Alexandrov, do Laboratório Nacional de Los Alamos. Nesta primeira análise extensiva de DNA cancerígeno ligado ao tabagismo, os investigadores analisaram cerca de cinco mil tumores, comparando cancros de fumadores com cancros semelhantes de pessoas que nunca fumaram e encontraram características moleculares específicas no ADN dos pulmões dos fumadores e determinaram o número nos diferentes tumores.

O estudo revela, pelo menos, cinco processos distintos através dos quais o ADN é danificado pelo hábito de fumar, sendo que o mais comum, uma aceleração do pêndulo celular que provoca a mutação prematura das células, é encontrado na maior parte dos cancros.

 

OMS confirma peso como factor de risco

 

Há muito que o excesso de peso e a obesidade são considerados factores de risco para o desenvolvimento de cancro, mas uma investigação recente vem revelar que estão ligados a mais tipos do que se pensava.

Uma investigação levada a cabo por especialistas do departamento responsável pelo programa de prevenção da Agência Internacional de Pesquisa sobre Cancro (IARC), da Organização Mundial da Saúde (OMS), fez uma nova avaliação e concluiu que o excesso de peso está ligado a oito tipos de cancro. O resumo com as principais conclusões do trabalho foi publicado no New England Journal of Medicine.

A pesquisa avaliou mais de mil estudos sobre a ligação entre a gordura corporal e o cancro e descobriu “evidências suficientes” de que as pessoas magras têm menos risco de cancro de estômago, fígado, vesícula biliar, pâncreas, ovários, tiróide, meningioma (cérebro) e mieloma (sangue). Os 21 especialistas internacionais reunidos pelo IARC confirmaram que um nível de gordura corporal dentro dos níveis recomendados reduz o risco de cancro de cólon e reto, esófago, rim, mama em mulheres após a menopausa, endométrio e útero.

Béatrice Lauby-Secretan, autora principal do artigo do New England Journal of Medicine, esta “avaliação abrangente reforça os benefícios de manter um peso saudável para reduzir o risco de diferentes tipos de cancro”.

 

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Angola recebe o 1º Curso de formação da Palop-Aortic

 

Escola de Cancro aposta na formação

para combater a doença

 

Susana Gonçalves

 

Especialistas dos Palops trocam informações em experiências numa iniciativa que pretende criar novos formadores para actuarem junto das populações e quadros médicos.

 

O anfiteatro do Instituto Angolano do Controlo do Cancro (IACC) recebeu, nos dias 23 e 24 de Janeiro, o primeiro curso da Escola de Cancro organizada no âmbito da Aortic (sigla inglesa para Organização Africana de Investigação e Formação de Cancro). A Aortic, recorde-se, conta com um grupo de especialistas que se dedicam ao estudo e acompanhamento das temáticas relacionadas com a oncologia nos Palop e que reúne de dois em dois anos, tendo já realizado congressos em Luanda (2014), em Maputo, Moçambique (2016), e com o próximo encontro já agendado para a Cidade de Praia, em Cabo Verde, em 2018.

No seu encontro de Maputo, em 2016, os especialistas da Palop-Aortic decidiram criar uma Escola de Oncologia dos Palop, contando com o apoio de delegações nacionais que funcionam nos centros de oncologia de cada um dos países envolvidos. Em Angola, essa delegação é responsabilidade do IACC e cumpre a sua missão em termos regulamentares. O corpo docente engloba, no caso de Angola, além de todos os oncologistas do IACC, os oncologistas das clínicas Sagrada Esperança e Girassol, bem como médicos e outros especialistas das áreas de oncologia de diversos hospitais do País.

“O objectivo principal desta escola é ‘formar formadores’, que irão trabalhar junto das populações, nos aspectos da atenção primária, bem como junto dos quadros dos hospitais”, revela Lúcio Lara Santos, cirurgião oncológico e investigador e um dos especialistas que está na origem da criação desta Escola.

A iniciativa, revela, conta com vários apoios externos de instituições internacionais, como, por exemplo, a Fundação Calouste Gulbenkian e os Institutos Portugueses de Oncologia (IOPs), o Instituto Nacional do Cancro e o Hospital de Câncer de Barretos, ambos do Brasil, o centro de tratamento MD Anderson, da Universidade do Texas, nos Estados Unidos da América, universidades e sociedades científicas internacionais, bem como da indústria farmacêutica.

 

Programa de trabalhos

Este primeiro curso ministrado na Escola, em Luanda, foi dividido em duas áreas distintas da oncologia. No primeiro dia do curso, foram abordados temas relacionados com os cancros da cabeça e pescoço. A plateia, composta por profissionais relacionados com o tratamento do cancro, ouviu os palestrantes falarem sobre temas como a doença em Angola, a consulta multidisciplinar de oncologia, a importância do diagnóstico precoce das patologias, o papel da cirurgia e da radioterapia ou a abordagem diagnóstico/terapêutica do cancro da cabeça e pescoço, entre outros. Além da presença de palestrantes nacionais, neste dia participaram ainda alguns especialistas internacionais como foi o caso dos médicos do Grupo de Estudos do Cancro da Cabeça e Pescoço de Portugal, nomeadamente a sua presidente, Ana Castro, e o seu vice-presidente, Guy Vieira.

Já no segundo e último dia, os cancros do cólon e rectal estiveram em destaque, com os especialistas convidados a falarem sobre o diagnóstico e vários tratamentos disponíveis, aspectos de anatomia patológica e biomarcadores, para referir apenas alguns dos temas focados. Este dia de palestras contou com a presença de especialistas do Grupo de Investigação do Cancro Digestivo de Portugal.

Para já, este primeiro curso foi destinado a médicos locais mas, segundo revelou Lúcio Lara Santos, que também é membro da direcção do Grupo de Investigação do Cancro Digestivo de Portugal, “dentro de dois meses haverá um curso maior, em Moçambique, em que estarão presentes vários elementos de várias nacionalidades”.

Os formadores serão, sobretudo, médicos nacionais mas cada Escola contará ainda com a colaboração de especialistas das sociedades científicas que são experts da área. “Na formação que realizaremos em Moçambique irão estar presentes especialistas do MD Anderson e do Hospital de Barretos, que têm grande experiência”, divulga Lara Santos.

 

Iniciativa importante

Visivelmente satisfeito com a realização deste curso no IACC, o seu director, Fernando Miguel, destacou a importância da realização desta primeira formação no Instituto e explicou o valor que atribui a este tipo de iniciativas. “Acho que são especialmente importantes numa altura em que se afirma que a não actualização dos médicos ou do pessoal de saúde contribui como um factor para o prognóstico dos doentes”, afirma, confessando que, na sua opinião “o facto de estarmos a actualizar os nossos conhecimentos com colegas que vieram de outras regiões do Mundo tem o valor de ouro”.

Guy Vieira, do Grupo de Estudos do Cancro da Cabeça e Pescoço de Portugal, destacou a importância do facto do curso ser ministrado no local onde vivem os formandos, pois, defende, “se os profissionais fizerem formação num centro especializado, mais evoluído do que aquilo que conhecem na sua realidade, todo o treino que façam não tem nada a ver com essa realidade. E isto não acontece só em Angola, acontece, por exemplo, quando médicos portugueses vão aos Estados Unidos da América. É, assim, muito mais importante levar a cabo este tipo de iniciativas no local, como as realidades, problemas e dificuldades próprias e tentar arranjar soluções. Também não interessa estar apenas a ‘debitar’ informação que, muitas vezes, até está disponível na Internet, sem a explicar. Dentro das dificuldades que existem em cada local, temos de procurar soluções para as contornar”. E esclarece que conhece bem as dificuldades que os profissionais de países africanos enfrentam, pois conhece a realidade no seu próprio país. “Sou moçambicano e o início da minha formação foi feito em Moçambique e só depois fui para Coimbra”, conta.

Este especialista em radioterapia já participou noutras iniciativas do género e garante que o retorno dos formandos é sempre muito positivo. “Com o Dr. Lúcio Lara Santos já fizemos iniciativas deste género em Cabo Verde e Moçambique e estamos a preparar-nos para ir à Guiné Bissau. A qualidade é sempre muito boa. Não é preciso ir buscar pessoas fora para nos ensinarem aquilo que sabemos fazer mas precisamos de quem nos ensine coisas novas. Claro que as armas com que estamos habituados a trabalhar são diferentes e talvez nesse aspecto exista uma luta desigual entre formadores e formandos”, reconhece.

“Com alguma ajuda, alguma orientação e, principalmente, muita cooperação e organização entre todos os Palops, podemos dar um salto qualitativo e melhorar bastante a situação”, defende Guy Vieira.

 

Formar é ganhar

Na condição de formanda, a médica patologista Vitória, considera estas formações muito importantes pois, afirma, “aprende-se sempre qualquer coisa nova. Vamos tomando mais conhecimento para tentar criar mais programas, mais eficazes. No caso dos patologistas, nós não somos muitos mas trabalhamos de forma muito individual. Este tipo de iniciativas é importante para tentarmos trabalhar mais em grupo”, defende, utilizando os exemplos usados pelos palestrantes que defendem o acompanhamento multidisciplinar do doente oncológico. “Há necessidade de trabalharmos todos em conjunto para fazermos um bom diagnóstico e um bom tratamento”, afirma. Embora note uma melhoria substancial no que diz respeito ao tratamento dos doentes com cancro, a patologista afirma, no entanto, que “ainda há muito a fazer no que diz respeito ao apoio ao paciente. Noto que são muitas as dificuldades que enfrentam, além da própria doença. Às vezes pedem-lhes para fazer mais exames complementares de diagnóstico que eles não sabem onde fazer, andando, literalmente, perdidos em Luanda. Isto para não falar, claro, das dificuldades financeiras. São motivos como estes que, muitas vezes, levam os doentes a abandonar o tratamento”, lamenta.

“Em tempo de crise, e não só, formar é ganhar e este é o lema dos criadores da Escola de Cancro dos Palop”, assegura Lúcio Lara Santos para justificar a aposta na divulgação de conhecimento e troca de experiências. O especialista revelou ainda que, paralelamente a esta iniciativa, serão assinados vários acordos de cooperação e formação entre o IACC e instituições estrangeiras, como é o caso dos dois grupos de investigação portugueses representados neste primeiro curso.

Apesar da oncologia, nos Palop, ainda estar numa fase menos desenvolvida, Lúcio Lara Santos assegura que já vai apresentando resultados e dados em todas as áreas. Entre as iniciativas levadas a cabo pela Palop-Aortic conta-se ainda a distribuição de apoio tecnológico aos países que ainda enfrentam dificuldades a esse nível. “Estamos a montar laboratórios simples, que não implicam tecnologia muito sofisticada e com uma utilização relativamente simples, mas que têm os mesmos resultados que se obtêm em laboratórios da Europa”, divulga com satisfação.

 

 

 

 

 

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Sociedade Angolana de Pediatria organiza Jornadas de Reflexão

 

“Preservando a saúde de uma criança

preserva-se o futuro da Nação”

 

Quem o afirma é Francisco Domingos, presidente da instituição que revela que, este ano, a SAP optou por uma nova fórmula na organização das suas jornadas e foi ao encontro dos profissionais ligados à saúde infantil para tentar identificar as causas na origem da situação crítica vivida no início do ano, com a taxa de mortalidade infantil a aumentar significativamente em muito pouco tempo, de forma a tentar encontrar possíveis soluções, caso uma crise semelhante venha a ocorrer no futuro.

 

n Criada em 2007, a Sociedade Angolana de Pediatria (SAP) congrega profissionais de saúde ligados ao tratamento da criança e do adolescente de forma a garantir a melhoria dos cuidados prestados a esta população. Assumindo como missão zelar pela saúde de crianças e jovens nos seus aspectos físico, mental e social, e pela apreciação justa do trabalho pediátrico no campo social, laboral, académico e de investigação, a Sociedade propõem-se ainda assessorar os organismos oficiais e privados em tudo o que se refere ao bem estar físico, psíquico e social da criança. Fomentar o desenvolvimento da pediatria nos seus aspectos assistenciais (preventivos, curativos e de reabilitação), através de reuniões, cursos, simpósios, seminários, conferências, publicações e concursos a nível nacional que estimulem o intercâmbio na investigação científica e na docência, é outra das funções da SAP e foi precisamente na sequência das últimas jornadas organizadas pela instituição que o Jornal da Saúde conversou com o seu presidente, o pediatra Francisco Domingos, para saber como correram estes encontros entre profissionais, numa entrevista em que se traçou um breve resumo da situação da saúde infantil no País.

Revelando que a SAP tem vindo a agregar vários profissionais interessados na saúde da criança e do adolescente e que não se limita a juntar apenas pediatras em torno destas questões, Francisco Domingos explica que “em sociedades mais desenvolvidas, este tipo de organizações conta apenas com pediatras, o que faz todo o sentido. No entanto, numa sociedade como a nossa, em que temos outros profissionais de saúde que não são pediatras mas que cuidam da criança, preferimos alargar a composição da instituição a estes profissionais”.

Reconhecendo que o número de pediatras existentes no País é francamente insuficiente, defende que essa insuficiência não pode ser um obstáculo ao melhor tratamento possível das crianças angolanas. “No contexto actual, no âmbito das nossas jornadas tentamos potencializar outros profissionais de saúde para atenderem crianças. Temos de formar e educar esses profissionais de forma a usarem protocolos de atendimento e outros mecanismo adequados ao tratamento desta população. Seria uma miragem dizermos que daqui a uns anos vamos ter pediatras que cheguem para responder às necessidades do País. Assim, temos de formar os médicos de clínica geral e capacitá-los para este tipo de pacientes. Há regiões em que nem sequer são médicos quem atende as crianças, são enfermeiros, que também têm de ser capacitados para estas situações. É isso que devemos fazer agora”, sugere o presidente da SAP.

 

Período crítico fornece ensinamentos

Com o objectivo de analisar a saúde infantil e os desafios que coloca, a SAP tem organizado as suas Jornadas de Pediatria, que contam já com sete edições, realizadas em Luanda mas também nas províncias de Benguela, Huíla e Malange. Este ano, a SAP, optou por organizar umas Jornadas de Reflexão para analisar a questão da mortalidade pediátrica no primeiro semestre de 2016. “Foi realmente um período muito crítico, com um grande afluxo de crianças às urgências e um elevado número de óbitos, sobretudo na capital. Assim, preferimos fazer uma análise ao nível da província de Luanda”, explica o pediatra. “Realizámos estas jornadas levando a apresentação do tema aos hospitais municipais. Dirigimo-nos a vários hospitais para analisarmos a situação ali vivida. Não nos deslocámos até junto dos profissionais apenas com a intenção de passarmos informação mas também com o intuito de recolher a informação que nos poderiam facultar. Através destes encontros foram identificados problemas que ocorreram naquele período, os locais onde faleceram mais crianças, as condições de trabalho nessas unidades e questões ao nível das repartições e direcções municipais”, revela Francisco Domingos, que afirma que esta experiência serviu, “acima de tudo, de base de trabalho para buscarmos soluções, caso, num período próximo, venhamos a enfrentar situações similares”.

A fórmula adoptada para a realização destas jornadas, com a SAP a dirigir-se aos hospitais municipais para falar com vários tipos de profissionais de saúde, também parece ter sido bem sucedida. “Os profissionais com quem contactámos revelaram um índice de satisfação muito grande com esta iniciativa e uma vontade de fazerem muito mais. As nossas jornadas costumavam ser mais fechadas mas, com esta experiência, abrimo-las a outros profissionais. Principalmente, fomos ao seu encontro. É mais fácil atingir objectivos desta forma, discutindo no ambiente onde trabalham e enfrentam os seus problemas”, garante, afirmando que esta foi “uma troca de impressões muito frutífera”.

Para já, a SAP ainda está a analisar os dados recolhidos nos encontros. “Estamos a compilar toda a informação que recolhemos e ainda não é oportuno   avançar com quaisquer dados. Os que recolhemos, terão de ser trabalhados e encaminhados para as devidas instituições”, esclarece o pediatra para quem a falta de estudos sobre os quais possam trabalhar é precisamente uma das dificuldades dos profissionais. “Temos de ter números e temos de analisá-los. No Hospital Pediátrico David Bernardino, que também é um ‘hospital-escola’, estamos a incentivar os internos de pediatria e os estudantes de pré-graduação a fazerem e apresentarem trabalhos científicos que sirvam de base de trabalho para melhorar as condições de saúde das nossas crianças, para corrigir erros e alterar atitudes”, revela.

Paralelamente à realização de encontros entre profissionais, Francisco Domingos destaca ainda das actividades da Sociedade, o trabalho de vários núcleos que trabalham de forma bastante autónoma e têm estado “a funcionar muito bem”, no âmbito da formação de profissionais e não só. “Falo do núcleo de aleitamento materno, constituído por quatro profissionais de saúde que se esforçam por divulgar os benefícios deste tipo de aleitamento, visitando, não só hospitais e centros de saúde, mas também empresas, por exemplo, para dar formação e transmitir a importância deste aleitamento. Falo também do núcleo da nutrição, que actua sobre o problema da alimentação. Num país com um número muito grande de crianças mal nutridas e este núcleo potencializa a formação dos profissionais de saúde para a educação das mães e para atenderem aos quadros de má nutrição. Temos ainda o núcleo das urgências, que trata da abordagem das situações de urgência e que tentámos também potencializar no quadro das últimas jornadas. Este núcleo actua ao nível da implantação de protocolos que sejam uniformes, para que os profissionais possam falar a mesma linguagem, ainda que em hospitais ou centros de saúde diferentes. É importante que todos abordem as patologias da mesma forma. Finalmente, temos ainda de falar do núcleo da Comissão de Imunização, que tem participado, por exemplo, no apoio à introdução de novas vacinas no programa de vacinação”, esclarece o presidente da SAP.

 

Melhorias consideráveis ao nível da saúde

 Apesar da situação complicada vivida no primeiro semestre deste ano, o presidente da SAP concorda que se pode dizer que tem havido melhorias “consideráveis” no âmbito da saúde infantil em Angola, “embora não tenhamos atingido os objectivos de desenvolvimento do milénio propostos pelas Nações Unidas relativamente à área da saúde. Ficámos muito aquém disso. Para chegarmos a esses objectivos teria de haver um esforço titânico, quase sobre-humano”, confessa.

Apesar de reconhecer essas melhorias, o pediatra salienta que são precisos esforços relativos a alguns pontos fundamentais que irão alterar a situação da saúde infantil. O saneamento do meio é um desses pontos. “Antes de mais, temos de viver num meio que seja afável e que tenha as condições mínimas de habitabilidade, com água potável, drenagem de esgotos, escoamento de lixo, etc.” Outro dos pontos básicos para a melhoria das condições de saúde das crianças angolanas passa pela alimentação, que deve ser melhorada, não apenas em termos quantitativos mas, sobretudo, qualitativos. “Muitas vezes, a alimentação mais correcta não tem a ver com o poder financeiro mas com facto de não se administrar à criança a dieta mais adequada ao seu desenvolvimento. Como se sabe, os primeiros anos de vida são fundamentais para o crescimento, a nível físico e intelectual. E isto é muito importante quando falamos de crianças, já que estamos a falar de quem vai dirigir o nosso País no futuro”, defende o especialista. Finalmente, mas não menos importante, “temos de falar da questão da vacinação, importantíssima porque existem doenças preveníveis que fazem muitas vítimas em Angola e tem havido uma baixa na cobertura vacinal”, lamenta o pediatra que aproveita para revelar que “a introdução das vacinas anti-pneumocócica  e anti-hemófilos no programa de vacinação aconteceu graças às estatísticas do Hospital Pediátrico que demonstraram que, com a introdução dessas vacinas, houve uma descida no número de internamentos, por exemplo, por meningites. Passámos de 800/900 internamentos por ano, para cerca de 150/200. Mas temos de continuar com coberturas boas de vacinação para manter estes níveis de internamento”.

 

Patologias prevalecentes

Questionado sobre que tipo de doenças mais atingem as crianças angolanas, Francisco Domingos revela que as mesmas são transversais e afectam quer as crianças que vivem nas grandes cidades, quer as que vivem nas províncias. “Poderão haver alterações de uma região para outra, devido às condições climatéricas, por exemplo, ou aos hábitos culturais, e nas províncias fronteiriças poderão existir algumas doenças transfronteiriças. Mas, no geral, as três principais patologias são a malária, as doenças respiratórias e as doenças diarreicas agudas. Depois, surgem as patologias ligadas a outras doenças infecciosas e as patologias do recém-nascido, muito importantes porque as nossas condições de acompanhamento pré-natal, parto e neonatal, ainda não são as melhores”. O presidente da SAP revela que, em Angola, além das doenças infecciosas começam agora a surgir as “doenças emergentes, as doenças endócrinas, metabólicas e genéticas”.

Além das patologias que ameaçam a saúde dos mais novos, há ainda espaço para falar da sinistralidade. “Embora o Hospital Pediátrico não seja um hospital vocacionado para a traumatologia, temos recebido crianças de outros hospitais que não têm condições para os atender, sobretudo ao nível dos cuidados intensivos”, esclarece o médico, acrescentando uma listagem dos principais acidentes registados: “Ingestão acidental de moedas e de outros corpos estranhos, e ingestão acidental de petróleo. Neste caso, temos de educar a população para a não indução do vómito. O petróleo é muito volátil e deve seguir o curso normal através dos intestinos e sair pelas fezes. Se induzirmos o vómito ele regressa às vias orais e, como é volátil, vai para os pulmões, o que causa grandes complicações. Esta é uma atitude profundamente errada da população que temos de tentar alterar”, alerta. “Depois, temos ainda as quedas, os acidentes e as queimaduras”, conclui.

 

 

 

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“A alteração de comportamentos pode levar a uma redução das estatísticas relacionadas com a mortalidade infantil em Angola e passa, basicamente, por dois factores: diminuir drasticamente o nível de analfabetismo e educar a população. Aqui, não são os hospitais que podem intervir. Não é uma questão financeira. É uma questão de base, de educação para a saúde”

Alteração de comportamentos é fundamental

 

Na opinião do especialista a alteração de comportamentos pode levar a uma redução das estatísticas relacionadas com a mortalidade infantil em Angola  e passa, basicamente, por dois factores: diminuir drasticamente o nível de analfabetismo e educar a população. “Aqui, não são os hospitais que podem intervir”, refere. “Não é uma questão financeira. É uma questão de base, de educação para a saúde. A população tem de ter um nível de educação elevado para perceber melhor aquilo que tentamos comunicar. No entanto, enquanto a população não tem esse nível de educação, temos de tentar comunicar baixando ao seu nível, falando a sua língua, entendendo os seus problemas culturais. Não podemos deixar de comunicar. Há meios e países, mesmo em África, que tiveram a experiência de conseguir resolver estes problemas, mesmo em comunidades longínquas”, garante Francisco Domingos.

A comunicação não é, porém, a única dificuldade dos pediatras. “Não queremos ser o último elo da cadeia, porque a saúde depende de vários determinantes. As pessoas têm uma noção de saúde ligada à instituição hospitalar. Mas nós pretendemos que a saúde dependa de vários factores. Pretendemos que gestores e decisores, a nível nacional, percebam que é necessário mudar esses factores para que nós, profissionais de saúde, também possamos funcionar bem. Como já disse, para um crescimento e desenvolvimento saudáveis, uma criança necessita de uma alimentação equilibrada, de vacinação e de educação. Educação da criança e dos próprios pais. Com estes factores determinantes resolvidos, os pediatras terão a vida mais facilitada”, defende o especialista que advoga ainda “a potenciação dos meios, equacionando os mais simples e operacionais. Numa época como a que atravessamos, não podemos exigir meios mais complexos. A partir dos meios mais simples de detemos, temos de tentar resolver os problemas das nossas crianças”.

A SAP não baixa os braços e, apesar de todas as dificuldades continua a apostar na interacção entre todos os protagonistas da luta pela defesa da saúde dos mais pequenos. Ainda a trabalhar sobre os resultados das últimas jornadas, a Sociedade reuniu já em Janeiro para estabelecer as próximas etapas da sua acção. Desta reunião, saíram os planos para a realização de novas jornadas, previsivelmente na segunda quinzena de Junho e que têm como lema preliminar “As Doenças Preveníveis por Vacinação”.

Determinado a prosseguir a luta por mais e melhores condições de vida e saúde para os mais novos, Francisco Domingos deixa um recado aos adultos: “Que tenhamos todos a noção de que só preservando a saúde de uma criança se preserva o futuro desta Nação”.

 

 

 

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Maternidades de Luanda recebem meios técnicos da PSI

 

 As maternidades da província e cidade de Luanda receberam, em Dezembro último, da representante da PSI em Angola, Anya Fedorova, um conjunto de meios técnicos e logísticos de apoio às intervenções de saúde materna, designadamente cinco mil dispositivos intrauterinos (DIU) e respectivos kits de inserção, 25 mil comprimidos misoprostol e 55 kits de AMEU (expiração manual endo-uterino) para o tratamento das hemorragias no 1º mês da gravidez, no quadro da cooperação entre o Ministério da Saúde e a organização não governamental Serviço Internacional para a População (PSI), no âmbito da implementação do Projecto de Saúde da Mulher (PSM).

No acto, a Directora Nacional de Saúde Pública em exercício, Henda Vasconcelos, referiu que estes produtos são essenciais, porque vão acudir ou atenuar a carência destes medicamentos e equipamentos ao nível da assistência materna, principalmente na província de Luanda, na primeira fase do projecto PSM.

“No âmbito do projecto de saúde da mulher estão a ser reforçadas as acções de advocacia e promoção do planeamento familiar e da contracepção, com particular incidência nos métodos anticoncepcionais modernos de longa duração (DIU e implantes), melhoria da capacitação e formação dos técnicos prestadores dos serviços de planeamento familiar e no manuseamento correcto dos cuidados de complicações pós-aborto (CCPA), aumentando assim a melhoria de qualidade da assistência, quer da administração de métodos contraceptivos, como clínica das gestantes com complicações de hemorragias durante o 1º trimestre de gestação” acrescentou.

 

Acções de formação cresceram em 2016

Anya Fedorova referiu que 2016 foi um ano marcado por muitas acções de formação, nomeadamente cinco treinamentos, três formações de formadores no sector público e duas dirigidas aos prestadores de cuidados de saúde no sector privado.

De acordo com a representante da PSI, a primeira formação consistiu no refrescamento de formadores nacionais em planeamento familiar (PF), com ênfase em contraceptivos de longa duração, nomeadamente DIU e implantes, que resultou na capacitação com sucesso de 11 técnicas formadoras sobre PF. A segunda incidiu na formação de formadores em ética médica e cuidados de complicação das hemorragias no 1º trimestre da gravidez (pós-aborto) com misoprotol, a qual contou com 16 participantes. A última formação foi sobre os cuidados de complicações das hemorragias durante o 1º trimestre da gravidez (pós-aborto) com AMEU, onde participaram 21 técnicos. A PSI efectuou ainda duas acções de formação para o sector privado, nas mesmas modalidades, que contaram com 17 participantes de sete clínicas privadas, dos quais 15 obtiveram aproveitamento positivo.

Finalmente, informou que durante as acções de formações cujas aulas teóricas, decorreu na maternidade Lucrécia Paím e na Escola Nacional de Saúde Pública, tendo as aulas práticas (estágios) decorrido nas maternidades Lucrécia Paim, Augusto Ngangula, Hospital Geral, Cajueiros, e Kilamba Kiaxi, onde a um total de 104 mulheres foram-lhes aplicadas o DIU e  207 optaram por usar o implante. Realizaram-se 256 tratamentos de hemorragias durante o 1º trimestre da gravidez (cuidados de complicações pós-aborto).

 

PSI em Angola

A PSI está em Angola desde o ano 2000, iniciando os seus trabalhos na prevenção do VIH/Sida e alargando mais tarde o seu eixo de intervenção na malária e nas doenças diarreicas, respectivamente em 2004 e 2008. Desde 2010 que está a implementar projectos na área planeamento familiar

Em coordenação com o Ministério da Saúde de Angola (MINSA) através da Direcção Nacional de Saúde pública (DNSP) e do INLS/SIDA, a ONG PSI actua na área da promoção de saúde e na implementação de programas de comunicação para a mudança de comportamento.

 

 

 

 

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A escovagem dos dentes

 

Celso Serra

Higienista oral

serra.celso@gmail.com

 

A necessidade da escovagem diária dos dentes está largamente difundida, quer como uma prática associada à higiene geral, quer como método de prevenção das doenças orais. Tendo em conta as causas das doenças orais que mais se registam, a eliminação do biofilme/placa bacteriana das superfícies dentárias é um imperativo que tem sido objecto de estudo de reportados investigadores, ao longo dos tempos. Stillman, Charter, Fones, Bass, entre outros, são nomes associados a muitos dos vários métodos de escovagem dos dentes. Com o que fazer, como fazer, quando fazer, o que evitar fazer, são questões abordadas frequentemente. Procurar dar resposta a essas questões é o objectivo da investigação que se vai fazendo.

 

Escolher uma escova de dentes

No mercado encontramos uma grande variedade de escovas dentárias: manuais e eléctricas. A escolha de uma escova dentária é um momento de grande incerteza para muitos utentes. Alguns aspectos devem ser levados em conta: a escova deve ser adaptada à boca do utente. Ser de fácil utilização. A dureza dos pelos deve ser média ou suave. Estes aspectos simples podem ser decisivos numa maior ou menor eficácia da escovagem. Por exemplo, se tivermos em conta a posição da gengiva, o estado dessa mesma gengiva, a escova deve adaptar-se aquela anatomia por forma a evitar causar dano ou aumentar o dano já existente.

 

Método de escovagem

Se a escolha da escova encerra variáveis decisivas para uma eficaz escovagem, o método de escovagem escolhido também pode ser decisivo. Vários métodos usados ao longo dos anos têm tido resultados longe dos pretendidos com agravamento da situação oral. O método de escovagem mais largamente difundido é o chamado método Bass ou sulcular. Este método procura remover o biofilme/placa bacteriana dos dentes e do sulco gengival prevenindo assim tanto as cáries como os problemas associados à gengiva. Sendo um método simples deverá, contudo, ser discutido com profissionais habilitados pois poderá haver contraindicações para a sua utilização tendo em conta a saúde oral do utente e outros métodos serem mais recomendados.

 

Quando escovar

Uma vez escolhida a escova, e o método de escovagem, surge a questão de quando fazer a escovagem dos dentes. Também aqui a discussão é muita e a especificidade do indivíduo vai ditar as suas necessidades. Uma questão deve ser levada em conta: mais vale uma escovagem bem feita do que várias incompletas. Ir dormir com a boca limpa deve ser uma prática habitual.

Evitar escovas de pelos duros, escovagem vigorosas e sem método e procurar ter uma rotina diária de escovagem são alguns cuidados que poderão ajudar na prevenção e promoção da saúde oral.

 Tendo em conta as especificidades de cada pessoa, o estado de saúde oral quer da gengiva quer dos dentes, as várias questões que encerra escovagem dos dentes e a importância da remoção de biofilme/ placa bacteriana, recorrer a profissionais habilitados, higienistas orais / médicos dentistas que, após observação, melhor poderão dar indicações para uma maior eficácia é um passo importante.

 

 

 

 

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Luandenses satisfeitos com a feira Natal com Saúde

 

Francisco Cosme dos Santos

 

A feira Natal com Saúde decorreu na Praça da Família (1º de Maio), nos dias 20 e 21 de Dezembro de 2016, sob o lema “A boa saúde é o melhor presente que pode receber neste natal”. Teve como objectivo a sensibilização e prevenção das enfermidades resultantes de acidentes rodoviários e de abusos típicos da quadra festiva.

 

O evento garantiu ainda assistência médica e medicamentosa aos habitantes de Luanda e de outras províncias que se fizeram presentes em massa no local, para fazerem consultas de pediatria, obstetrícia, planeamento familiar, estomatologia, nutrição, cardiologia, bem como rastreios da malária, VIH/Sida, diabetes e hipertensão arterial.

Realizou-se ainda a vacinação de mulheres em idade fértil e crianças. Os visitantes puderam também apreciar uma exposição de destroços resultantes de acidentes rodoviários e domésticos. O exercício físico não foi esquecido. E as acções de sensibilização e prevenção das doenças transmissíveis por vectores também não.

´Para o vice-governador de Luanda para os serviços comunitários, Rui da Silva, que presidiu ao acto de inauguração, “ter saúde é o melhor presente que se pode receber no Natal e foi com este propósito que o governo provincial promoveu a feira, com o objectivo de consciencializar os munícipes de Luanda quanto aos cuidados de saúde que devem ter durante o ano e, em particular, durante a quadra festiva”.

Rui da Silva apelou à população para adoptar um comportamento cívico responsável, começando pelo respeito das orientações das autoridades policiais e da saúde, como forma de prevenção de acidentes rodoviários, decorrentes da desobediência das regras de trânsito e ingestão de bebidas alcoólicas, ao que acresce os acidentes domésticos devido ao incorrecto manuseio de utensílios como velas, geradores e possíveis ingestões de alimentos não saldáveis.

Consumo exagerado de álcool, agressões e excesso de velocidade

De acordo com a directora provincial de saúde de Luanda, Rosa Bessa, na quadra festiva de 2015, o governo da província de Luanda registou cerca de 21.346 ocorrências em medicina, 3.330 das quais foram por consumo exagerado de álcool, agressões e excesso de velocidade. Assinalaram-se ainda 600 queimaduras – um aumento de 10 por cento em relação ao ano anterior – o que exigiu um trabalho excepcional ao “hospital dos Queimados”.

Rosa Bessa alertou os doentes hipertensivos e diabéticos para não pararem de fazer a medicação durante a fase da quadra festiva e evitarem os excessos na alimentação para não aumentarem as complicações.

 

 

 

 

 

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